Conforme observa Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, entre as atividades de lazer com maior potencial terapêutico para o idoso, os jogos de tabuleiro e de cartas ocupam um lugar que combina estimulação cognitiva, vínculo social e prazer genuíno de uma forma que poucos programas estruturados conseguem replicar com o mesmo grau de adesão espontânea.
Xadrez, dominó, baralho, damas e outros jogos tradicionais não são apenas passatempos: são intervenções cognitivas e sociais com mecanismos documentados de benefício sobre o cérebro envelhecido. Ao longo deste conteúdo, veremos o que a ciência demonstra sobre essa prática e por que ela merece um lugar formal nos programas de cuidado ao idoso. Acompanhe!
O que os jogos fazem com o cérebro envelhecido?
Jogar xadrez, dominó ou cartas exige um conjunto de funções cognitivas que raramente são exercitadas de forma tão integrada em outras atividades cotidianas. O planejamento de jogadas futuras recruta as funções executivas do córtex pré-frontal. Já a memorização de peças, cartas ou pedras já jogadas demanda memória de trabalho. A leitura das intenções do adversário, por sua vez, ativa a teoria da mente, capacidade de inferir o pensamento de outra pessoa. Ademais, a atenção sustentada necessária para acompanhar o desenvolvimento da partida exercita circuitos de concentração que o envelhecimento progressivamente fragiliza.
Como detalha Yuri Silva Portela, estudos longitudinais com populações idosas demonstram que a participação regular em atividades de jogos está associada a menor risco de desenvolvimento de demência, com benefícios que persistem independentemente do nível de escolaridade ou da condição socioeconômica dos participantes. Esse efeito protetor é atribuído à contribuição dos jogos para a reserva cognitiva, a capacidade do cérebro de tolerar danos sem manifestar sintomas clínicos evidentes.
Socialização, vínculo e o jogo como pretexto para o encontro
Além dos benefícios cognitivos, os jogos de tabuleiro e cartas têm uma dimensão social que potencializa seus efeitos sobre a saúde. Isso porque jogar exige presença, atenção ao outro, comunicação verbal e não verbal, e a negociação implícita das regras e do ritmo da partida. Esse ambiente de interação estruturada é particularmente valioso para idosos com dificuldade de manter conversas espontâneas prolongadas, pois o jogo oferece um tema comum, um objetivo compartilhado e um contexto que facilita a interação sem exigir habilidades sociais que o declínio cognitivo pode ter comprometido.

Na perspectiva de Yuri Silva Portela, grupos regulares de jogos em centros de convivência, instituições de longa permanência e projetos comunitários de saúde têm impacto documentado sobre indicadores de solidão e isolamento social em idosos, com benefícios que vão além do período de jogo em si. As amizades formadas ao redor da mesa de dominó ou de cartas tendem a se estender para outros contextos, criando redes de suporte informal que têm valor clínico real para a saúde mental e a segurança cotidiana do idoso.
Jogos específicos e seus benefícios particulares
Diferentes jogos exercitam aspectos distintos da cognição, o que torna a variedade de práticas mais benéfica do que a repetição do mesmo jogo. O xadrez, com sua complexidade estratégica e sua exigência de planejamento de longo prazo, é particularmente eficaz para o treinamento das funções executivas. O dominó, com sua combinação de cálculo, memória e leitura do adversário, oferece estimulação mais acessível para idosos com menor escolaridade. Os jogos de cartas, como truco e canastra, combinam memória, estratégia e comunicação não verbal em um formato culturalmente familiar para a maioria dos idosos brasileiros.
Yuri Silva Portela pontua que a familiaridade cultural dos jogos tradicionais brasileiros é um fator terapêutico em si mesmo. Isso porque retomar uma atividade que foi prazerosa em outras fases da vida ativa memórias autobiográficas positivas, fortalece a continuidade da identidade e produz estados emocionais que têm correlatos fisiológicos mensuráveis sobre humor, imunidade e disposição geral.
Como implementar clubes de jogos em contextos de saúde comunitária?
Organizar um clube de jogos para idosos em um centro de convivência, uma instituição de longa permanência ou um projeto comunitário de saúde não exige recursos sofisticados. Afinal, jogos tradicionais de baixo custo, um espaço com iluminação adequada, mesas e cadeiras confortáveis e um horário regular de encontros são os ingredientes básicos de uma intervenção com alto potencial de impacto e baixo custo operacional.
Yuri Silva Portela pondera que incluir atividades de jogos como componente formal de programas de saúde geriátrica é reconhecer que a medicina do idoso precisa ser também uma medicina do prazer, da conexão e do jogo. O cérebro que se diverte enquanto pensa está fazendo exatamente o que precisa para envelhecer com mais saúde e mais qualidade de vida.


