domingo, setembro 26, 2021
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Viúva de Adriano da Nóbrega revela quem é o chefe do Escritório do Crime

Viúva do ex-capitão Adriano Magalhães da Nóbrega, Julia Mello Lotufo vive uma situação delicada. Cumprindo prisão domiciliar sob a acusação de participar de um esquema de lavagem de dinheiro proveniente das atividades criminosas de seu ex-marido, ela apresentou uma proposta de delação premiada com o objetivo de recuperar a liberdade. O acordo ainda não foi aceito — nem rechaçado — pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, mas a sua mera negociação provocou uma série de desgastes. No âmbito do MP, resultou em desentendimentos internos e contribuiu para a saída das promotoras Simone Sibílio e Leticia Emile da força-tarefa que investiga o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. No caso de Julia, o contratempo foi maior. Ela voltou a receber ameaças de que, se contar tudo o que sabe, pode ser morta como queima de arquivo. Desde junho, quando houve a primeira conversa sobre a delação na Promotoria, a residência dela é vigiada 24 horas por dia por uma equipe da Polícia Civil do Rio. Ou seja: a viúva vive encarcerada em razão de uma ordem judicial, mas também pelo medo de ser assassinada.

TABELA DE PREÇOS - Milicianos cobravam 500 000 reais para matar alguém –Leo Correa/AP/Imageplus/.

A possibilidade de execução está diretamente ligada à quantidade de informações que Julia armazenou durante dez anos de convívio com Adriano. No mês passado, VEJA revelou que a viúva, nas tratativas com o MP, apontou o mandante das mortes de Marielle e Anderson Gomes, discorreu sobre a participação de Adriano em execuções e prometeu entregar os nomes de autoridades que receberam propina para acobertar crimes ou beneficiar criminosos. A íntegra da proposta de colaboração, a que VEJA agora teve acesso, traz detalhes de cada um desses temas. No anexo 12, por exemplo, Julia denuncia um caso de corrupção no Poder Judiciário. Ela conta que, em 2017, Adriano chegou à casa deles dizendo que precisava levantar 1 milhão de reais em espécie para comprar a soltura de um comparsa, Antônio de Souza Freitas, o Batoré. O valor seria entregue ao desembargador Guaraci de Campos Vianna, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que, na condição de plantonista, analisaria o pedido de soltura. Segundo Julia, Adriano e Batoré sabiam que eventual liminar favorável seria derrubada assim que o plantão acabasse e o caso voltasse ao relator original, o que de fato aconteceu. Mesmo assim, a dupla fez o investimento. Deu certo, conforme o relato de Julia, já que Batoré foi solto e fugiu antes de a liminar ser revogada.

VÍTIMAS - Corpos foram sepultados em cemitério clandestino dentro do haras –./Reprodução

Tempos depois de resolvida a questão judicial, Julia conta ter ouvido de Adriano que ele tinha dado um Range Rover, que ficava na garagem da casa do casal, para ajudar a pagar o acordo com o desembargador. A viúva lembra no anexo que Guaraci de Campos Vianna responde a processo administrativo disciplinar por conceder liminares durante plantões que fogem das hipóteses legais e regimentais previstas. Entre elas, a liminar que beneficiou o próprio Batoré. Procurado, o desembargador disse que nunca recebeu vantagem alguma. De acordo com Julia, Adriano dividia com comparsas uma despesa mensal para obter informações privilegiadas sobre investigações que lhes dissessem respeito. Seria um investimento em busca da impunidade. Ela cita dois agentes da Delegacia de Homicídios do Rio e o então promotor de Justiça Homero das Neves Freitas Filho como informantes, mas não detalha no anexo a atuação de cada um deles. O promotor Homero, que hoje trabalha como advogado, negou ter sido informante do grupo de Adriano e Bernardo. “Fui coordenador da Central de Inquéritos, denunciei um trilhão de pessoas”, disse.

Boa parte da proposta de delação se dedica a esquadrinhar a atuação do chamado Escritório do Crime, que, segundo Julia, continuou a funcionar normalmente após a morte de Adriano. O chefe do grupo de extermínio, de acordo com a viúva, é Bernardo Bello Barbosa, ex-presidente e ex-patrono da escola de samba Vila Isabel. Bernardo e Adriano teriam sido sócios. O primeiro cuidava da administração financeira do Escritório do Crime, conforme a descrição de Julia, enquanto o segundo ficava à frente da “força armada”. Conforme o relato da viúva, Bernardo designava a vítima, e Adriano traçava a tática para a execução, escolhendo as armas a serem empregadas e os participantes da ação. No anexo 4, batizado de “Outros delitos praticados no Escritório do Crime e a mando de Bernardo Bello”, Julia diz que Bernardo decidiu encomendar alguns crimes sem consultar Adriano. Um deles foi o de uma pessoa que era próxima a ambos, o que provocou incômodo no ex-capitão. Outro foi o de um cidadão que arrendava uma área para Bernardo, que queria se apossar do terreno. Num dos anexos, a viúva relata que os corpos de várias vítimas foram enterrados no Haras Modelo, localizado em Guapimirim, no Rio de Janeiro, que era administrado por Adriano.

PROTAGONISTA - O bicheiro Bernardo Bello Barbosa: apontado pela delatora como chefe do Escritório do Crime –./Reprodução

Apontado como comandante do Escritório do Crime, Bernardo Bello é o protagonista do acordo de colaboração. No anexo 6, que trata da morte de seu ex-­marido, Julia afirma que em 2019 Adriano recebeu informações de que Bernardo havia procurado interlocutores do então governador do Rio, Wilson Witzel, para convencê-los de que o ideal não seria a prisão do ex-capitão, que estava foragido, mas a morte dele. Se assim fosse feito, os dois saíram ganhando. Bernardo se livraria de mais um antigo sócio, com o qual acumulava desgastes. Já Witzel reforçaria seu discurso público de combate aos criminosos. Como se sabe, Adriano foi morto em fevereiro de 2020 numa ação conjunta da Polícia Militar da Bahia e o setor de inteligência da Polícia Civil do Rio. As circunstâncias da morte ainda estão sob investigação. A versão oficial é de que o ex-capitão morreu numa troca de tiros, ao resistir a uma ordem de prisão. Julia alega que ele foi torturado e executado, como queima de arquivo. “Eu não sei quem é Bernardo Bello, estou ouvindo o nome dele pela primeira vez, desconheço quem é a mulher do capitão Adriano, eu sequer sabia da existência do capitão Adriano até ele ser morto na Bahia”, disse Witzel.

PRESO - Girão: apontado como mandante do assassinato de Marielle –./Reprodução

No anexo 4, a viúva descreve como Bernardo tentou insistentemente conversar com seu novo marido, Eduardo Giraldes, e como mandou sucessivos recados a ele para que ela não o denunciasse. Bernardo teria ido inclusive ao condomínio onde o casal mora e lá conversado durante uma hora e meia com Eduardo dentro de um carro. Imagens do sistema de câmeras do condomínio que registram o encontro foram anexadas à proposta de colaboração. Durante a conversa, segundo Julia, Bernardo teria perguntado a Eduardo por que uma equipe da Polícia Civil fazia a vigilância do casal 24 horas por dia. VEJA tentou vários contatos com Bernardo Bello, mas não teve retorno até o fechamento desta edição.

A VERSÃO DA VIÚVA - A casa onde Adriano foi morto: “tortura e execução” –Cristiano Mariz/.

No anexo 10, Julia trata da morte de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Ela conta que Maurício Silva da Costa — conhecido como Maurição, um dos chefes da milícia de Rio das Pedras — procurou Adriano, a pedido do ex-vereador Cristiano Girão, líder da comunidade de Gardênia Azul, para sondá-lo sobre a possibilidade de ele executar a vereadora. O ex-­capitão teria rechaçado de imediato a proposta por dois motivos. Primeiro, porque o assassinato de uma parlamentar geraria enorme repercussão e se tornaria um problema para todos os milicianos da região. Segundo, porque Adriano achava que a atuação de Marielle em favor da população carente das comunidades jamais atrapalharia os negócios da milícia. “Pelo amor de Deus, não traga esse problema para cá”, teria sido a resposta do ex-capitão. Tempos depois, ocorreu a execução. Adriano então convocou os integrantes da milícia de Rio das Pedras para pedir explicações. Segundo o relato de Julia, ele teve a certeza de que “Maurício deu ok para Girão no homicídio de Marielle” e que o executor foi Ronnie Lessa, preso e acusado pelo MP de matar a vereadora. Em entrevista recente a VEJA, o ex-vereador Girão declarou-se inocente.

PARCERIA - Witzel: segundo Julia Lotufo, ele conversava com o crime organizado –Jose Lucena/Futura Press/.

No anexo 2, Julia discorre sobre o patrimônio de Adriano. Ela afirma que ele investia dinheiro da contravenção em negócios imobiliários na comunidade de Rio das Pedras, onde teria aproximadamente 300 imóveis. Após a morte do ex-capitão, a viúva foi até a comunidade para saber do rateio do espólio. Teria ouvido de Maurição, o mesmo que tratou da possibilidade da execução de Marielle, que a herança seria toda destinada à mãe de Adriano, Raimunda Veras. “Vera”, como ela é conhecida, foi funcionária fantasma do gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro e, segundo o MP, participou ativamente do esquema da rachadinha, devolvendo parte dos salários que recebia. A primeira mulher de Adriano, Danielle da Nóbrega, também foi servidora do gabinete e denunciada pelo MP. Na conversa com os promotores, Julia não citou a rachadinha e só mencionou Fabrício Queiroz, o operador do esquema, uma vez, para listá-lo entre os amigos de Adriano. Os promotores que ouviram os relatos da viúva acreditam que ela guarda outros segredos.

Publicado em VEJA de 11 de agosto de 2021, edição nº 2750

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