domingo, julho 3, 2022
HomePolíticaO general esqueceu os generais

O general esqueceu os generais

O general Rêgo Barros foi porta-voz oficial de Jair Bolsonaro, e hoje parece ser uma espécie de porta-voz oficioso da parcela do oficialato que está decepcionada e insatisfeita com o presidente.

O general publicou artigo alertando que “um abismo se aprofunda à nossa frente” e denunciando aqueles que, por cobiça e insensatez, ajudam Bolsonaro a cavá-lo. Escreveu, em seu infalível, e enviesado, estilo rococó, o general:

“Há muitos desejando o cargo. Ou temendo perdê-lo. São burocratas que sonham com ganhos não meritórios, políticos interessados na escravidão dos currais eleitorais e até chefes de governo que objetivam, tão somente, a reeleição”.

O general, naturalmente, se refere a Jair Bolsonaro, chefe de governo que só pensa em se reeleger. A políticos como Arthur Lira e Ciro Nogueira, que, por só pensarem em seus currais, aceitam as barbaridades de Bolsonaro. E a burocratas e tecnocratas submissos e incompetentes, como Lorenzoni, Guedes, Queiroga (e, de fato, a todos os outros ministros, sem exceção), que ajudam Bolsonaro em suas barbaridades.

Está coberto de razão o general. Que, aliás, fala com conhecimento de causa, já que passou quase dois anos no governo (não se sabe se foi por medo de perder o cargo que sofreu calado todo tipo de humilhação, mas o fato é que só foi embora demitido).

Tendo estado tanto tempo no governo, é curioso que o general ex-porta-voz critique o presidente, os burocratas e os políticos, mas nada tenha a dizer sobre os seis mil militares aboletados no governo, que, em silêncio ou em voz alta, dizem amém para as barbaridades do chefe. Entre esses obsequiosos militares, há nada menos do que oito oficiais generais (quatro em algum momento na ativa) que estão ou estiveram no primeiro escalão.

Por essas ironias da vida, o artigo em que o general Rêgo Barros faz vista grossa para a responsabilidade dos militares foi publicado no dia seguinte à parada militar com que Jair Bolsonaro tentou intimidar o Congresso Nacional.

No alto da rampa, ao lado do presidente, em posição de sentido, misturados com poucos e pouco importantes políticos e burocratas, estavam o comandante da Aeronáutica (que deu entrevista ameaçando o Senado Federal), o comandante da Marinha (de quem partiu a ideia do desfile), e o comandante do Exército (que preferiu deixar Pazuello impune a abrir mão do cargo).

A incapacidade de autocrítica de Rêgo Barros, afora o corporativismo, está ligada ao fato de que o general deve acreditar, como tantos em sua corporação, que militares são íntegros por definição. Mas, como mostram os coronéis do ministério da Saúde, farda não confere integridade a ninguém: os cúmplices de Jair Bolsonaro são muitos, e nem todos são paisanos.

Ninguém tem mais a perder com a proximidade a Bolsonaro do que os militares. Já passou da hora de entenderem que precisam se afastar dele.

- Advertisment -spot_img