segunda-feira, janeiro 17, 2022
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O epílogo de uma estatal de 358 anos na invisibilidade do voto à distância

O governo realizou, ontem, uma proeza legislativa: obteve da Câmara autorização para privatizar uma empresa estatal de 358 anos de existência com um simples projeto de lei (nº 521). Faz parte do portfólio de receitas extras planejadas para financiar obras na temporada das eleições de 2022.

Foi com um quórum expressivo de 412 deputados, dos quais menos de duas dezenas estavam visíveis — mais de 60% se mantiveram na invisibilidade do voto “sim” à distância, por via eletrônica.

Agora, o debate será no Senado. Desiludida, a oposição anuncia uma batalha nos tribunais para anular o projeto de lei, onde se escreve o epílogo de uma história que começou com o Correio-Mor, no Rio de 1663, quando a capital colonial ainda era Salvador.

Com plenário vazio e a oposição rendida pela maioria, que rejeitou as propostas de mudanças no projeto, a sessão da tarde na Câmara avançava tranquila. Chegou a vez do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), um dos filhos do presidente, defender o projeto:

— A questão dos Correios… Sabem por que que o pessoal da esquerda está reclamando que os empresários vão lucrar? Vão lucrar mesmo. Ninguém investe o seu dinheiro para ter prejuízo, ora bolas. É porque esse lucro não vai mais para a galera deles. O carteiro que ganha o salário de 1.500 a 2 mil reais teve que pagar 25% do seu salário para cobrir o rombo de 7 bilhões do [fundo de previdência] Postalis, feito durante a gestão Dilma Rousseff. É claro que eles não vão querer largar esse osso!

Começou um tumulto no recinto. Ele prosseguiu: — Se somarmos com PREVI [do Banco do Brasil], FUNCEF [da Caixa Econômica] e outros fundos de pensão, o governo Dilma, com seus apadrinhados, deu mais de 100 bilhões de reais de prejuízo. E não estou falando de gente rica, não. Estou falando de prejuízo em gente que recebe de 1.500 reais a 2.500 reais.

Um dos líderes do PT, o gaúcho Henrique Fontana, correu para o contra-ataque: — A Oposição aproveita para dizer que o deputado que acaba de usar a palavra representa um governo cuja política central é intimidar as pessoas…

— Um governo honesto que não rouba os carteiros! — cortou Bolsonaro.

— Vossa excelência vai me ouvir porque não é dono deste plenário, muito menos dono do Brasil! Aliás, está terminando o governo de vossa excelência! O governo está terminando!

Ivan Valente (PSol-SP) atalhou, aos gritos: — É um governo de bandidos, assassinos e golpistas!

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP – AL), começou a apelar à calma. Inútil.

— Este deputado que acaba de falar — insistiu Fontana — representa um governo que está envolvido com corrupção na compra de vacinas, que cobra propina de 1 dólar por dose de vacina! E tem uma família que consegue dinheiro para comprar uma casa de 5 milhões de reais aqui em Brasília sem mostrar de onde veio o dinheiro. Vamos debater, sim, deputado Eduardo Bolsonaro!

Apressado, o filho do presidente deixou o plenário. Lira insistiu: — Está encerrada a votação, e eu quero…

— É governo de bandido! Golpista! Deveria ser “impichado” hoje mesmo! Governo da rachadinha! — gritava Valente.

Paciente, Lira desligou microfones, e aguardou a calmaria. Quando acabou o tumulto, ironizou: — Eu queria pedir um pouco de postura. Todo mundo já colocou os hormônios e feromônios para fora. Eu espero que, agora, consigam relaxar…

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