quarta-feira, março 3, 2021
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Insumos da China para CoronaVac botam Ernesto Araújo na mira de Mourão

Principal ativo político e considerada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, como instrumento primordial para a retomada econômica, a vacina contra a Covid-19 virou objeto de louros e discórdias no primeiro escalão do governo federal. Com a atuação questionável do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, como articulador com os chineses pela liberação de insumos para a CoronaVac e o imunizante produzido pela AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford, o vice-presidente Hamilton Mourão colocou-se à disposição para negociar com a China pela liberação da matéria-prima das vacinas. Mourão usou de sua proximidade com o vice-presidente chinês, Wang Qishan, e o embaixador brasileiro no país, Paulo Mesquita, para acelerar a liberação de 5,4 mil litros do ativo para a consolidação das doses da CoronaVac, desenvolvida em parceria com o Instituto Butantan.

Mourão teve os trabalhos dispensados pelo presidente Jair Bolsonaro — mas não ficou por isso mesmo. Em entrevista à rádio Bandeirantes, o vice-presidente jogou o chanceler na fogueira. “Julgo que, num futuro próximo, após a questão das eleições dos novos presidentes das duas casas do Congresso, poderá ocorrer uma reorganização do governo para que seja acomodada, vamos dizer assim, a nova composição política que emergir desse processo”, afirmou Mourão. “Então, talvez, nisso aí, alguns ministros sejam trocados, entre eles o próprio MRE (ministro das Relações Exteriores)”, completou o vice-presidente.

A auxiliares, Mourão admitiu que o movimento serviu para enfraquecer e diminuir os trabalhos de Araújo — cuja participação na liberação dos princípios chineses é pífia. O ex-presidente Michel Temer e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), por exemplo, trabalharam com muito mais afinco (e resultados) do que o chanceler, que acabou ficando de escanteio mesmo dentro de sua equipe. Em live ao lado presidente, Araújo admitiu que os contatos com os chineses por parte do seu ministério foram feitos pelo embaixador brasileiro no país asiático.

Já Mourão vem buscando maior protagonismo e participação e consultas em decisões do governo federal, e viu-se como peça fundamental para a construção do relacionamento com a China. A questão é que, em meio à queda de popularidade do presidente graças à gestão errática da pandemia, Bolsonaro teme cada vez mais que Mourão mostre-se ativo. Desde o início do governo, o número um da República torce o nariz para os momentos em que seu vice-presidente diverge publicamente dele — normalmente, apelando à sensatez na condução das relações do governo com outros países e entes federativos. A série de desencontros retóricos custou a cabeça de, ao menos, dois assessores próximos de Mourão durante os dois anos de mandato. Apesar das caneladas de membros do governo, Mourão firmou, desde o início da gestão, um contato próximo com os chineses.

Mourão era escalado por Bolsonaro como um articulador para assuntos relacionados ao principal parceiro comercial do Brasil, e chegou a ser escolhido como o presidente da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban), uma organização para aprofundar a relação bilateral entre os dois países. Isso também servia aos interesses do presidente, porque ele não podia abandonar as relações com o principal parceiro comercial do Brasil, mas ao mesmo tempo não queria mostrar a seus eleitores mais radicais posicionamento ao lado dos tão criticados chineses. O próprio presidente Bolsonaro, vale lembrar, já subiu o tom contra a China e fez pouco caso da vacina produzida pela Sinovac em parceria com o Butantan.

Desde o imbróglio envolvendo a liberação dos insumos, aumentou a pressão para que o atual ministro das Relações Exteriores fosse demitido. O principal problema envolve, ninguém mais, ninguém menos, do que o presidente Bolsonaro — e seus filhos. Vozes ativas da ala mais radical do governo, Carlos e Eduardo Bolsonaro emplacaram três nomes recentes no rol de ocupantes de pastas na gestão do pai. A demissão do então ministro da Educação Abraham Weintraub fincou os pés na Esplanada de Araújo e de Ricardo Salles, do Meio Ambiente, como representantes das estridências ideológicas do Palácio do Planalto. Mourão e Ernesto, há muito, não se dão bem.

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