segunda-feira, setembro 27, 2021
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Correção de rumo: elevação radical dos juros é medida dura, mas necessária

O futuro parecia certo para o ministro da Economia, Paulo Guedes, quando, em novembro de 2019, decretou a um grupo de CEOs de empresas do Brasil e dos Estados Unidos reunidos em Washington que era “bom se acostumarem com o câmbio mais alto e juro mais baixo por um bom tempo”. O câmbio mais alto significava um patamar de 4,20 reais por dólar. Já o juro mais baixo representava uma taxa de 5% para a Selic, os juros básicos da economia, estabelecidos pelo Banco Central, presidido por Roberto Campos Neto. “Os juros reais do Brasil estão abaixo de 2%. Inflação descendo, os juros descendo junto”, disse Guedes, contabilizando a diferença entra a Selic e a inflação anual, que estava em torno de 3%.

No entanto, nenhum dos presentes no encontro poderia imaginar que semanas depois a eclosão da pandemia ocasionada por um novo coronavírus varreria o planeta, causando uma tragédia sanitária e desarranjando as contas das nações. Uma das principais consequências para a economia brasileira foi a aceleração da queda na taxa de juros, que já vinha acontecendo, como forma de conter a dramática baixa do PIB que então se projetava. Dessa forma, a Selic chegou a ficar estabelecida no recorde de baixa de 2% entre agosto do ano passado e março de 2021. Essa poderia ser a senha para o Brasil estabelecer, de vez, a sua economia num patamar de juros baixos, mesmo que esse nível recorde não fosse permanecer indefinidamente.

arte Juros

Mas havia pela frente outra consequência de difícil previsão criada pela pandemia: uma escalada da inflação provocada pelo aumento dos preços das commodities no mercado global e pelas incertezas decorrentes das sucessivas ondas de infecção e reinfecção pelo vírus.

Com a inflação saindo de controle, restou ao time de Campos Neto intervir na taxa de juros, frustrando as projeções feitas por Guedes há dois anos. A partir de março, o BC passou a subir gradualmente a Selic, num ritmo de 0,75 ponto percentual a cada revisão. Na quarta-feira 4, decidiu-se por um movimento mais radical, em que o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC aumentou a taxa em 1 ponto porcentual, levando a Selic aos 5,25% ao ano. Essa decisão se seguiu a uma mudança de expectativas do mercado. Se, no começo de 2021, as projeções da maioria dos analistas eram de juros de 3% ao final do ano, a expectativa mudou.

Poucas horas depois do anúncio do BC, o banco Credit Suisse divulgou na noite do próprio dia 4 o aumento em 1 ponto de suas expectativas para a taxa de juros, agora para 8,25% até dezembro. A justificativa para isso era que o BC estaria entrando no modo de fazer “o que for preciso” para interromper a deterioração das condições inflacionárias. É algo com que muitos experientes analistas concordam. “O BC está em uma batalha contra as projeções de inflação. Se as expectativas para 2022 fossem mais estáveis e estivessem bem ancoradas, provavelmente seria possível um aumento gradual,conforme previa o plano inicial”, avalia Luiz Felipe Laudari, sócio e gestor da Mauá Capital. “No entanto, a inflação veio muito mais arredia do que se esperava anteriormente.” Agora, o cenário é de que os juros não voltem tão cedo para os níveis dos sonhos de Guedes, abaixo dos 5%.

EFEITO POSITIVO - Obra em São Paulo: a perspectiva de novas altas nos juros pode acelerar as vendas –Cadu Rolim/Fotoarena/.

No arsenal de medidas contra o crescimento da inflação, o aumento na taxa de juros é a mais imediata. Nesse sentido, quanto mais alta a previsão de inflação, maior a taxa de juros para controlá-la. O problema é que juros altos afetam diretamente investimentos produtivos, a atividade econômica e o emprego. E, mesmo com a calibragem significativa da semana passada, a Selic se manteve abaixo da inflação. De acordo com as projeções de mercado divulgadas pelo boletim Focus da última semana, há uma expectativa de que o IPCA, a inflação oficial, feche 2021 em 6,79%. É um índice superior ao teto da meta do Banco Central, que está na faixa de 2,25% a 5,25%, e também ainda mais alto do que os 5,25% atuais da Selic. As expectativas otimistas do mercado preveem juros em nível positivo diante da inflação mais próximo ao fim do ano. Mas há o risco de que as pressões para aumentos de preços transbordem para 2022, em especial depois da reabertura mais efetiva da economia e do retorno da atividade plena do setor de serviços, que ainda está com preços deprimidos.

Com impactos variáveis tanto em escala como em abrangência, a taxa de juros em patamares elevados pode ter consequência direta sobre setores que tiveram grande expansão nos últimos anos. É o caso do mercado de capitais e dos investimentos de renda variável, que podem perder parte de seu apelo. Com os juros baixos, uma parcela considerável dos investidores brasileiros migrou para o mercado de capitais, atraída para a bolsa de valores exatamente pelos retornos maiores e para evitar os lucros decrescentes da renda fixa. Entre abril de 2019 e abril de 2021, o número de investidores na B3 foi de 1 milhão de pessoas para 3,5 milhões. Com os juros em queda desde 2016 (veja o gráfico), títulos do Tesouro, poupança e CDBs tornaram-se cada vez menos interessantes, com a remuneração chegando a ficar abaixo da inflação com a Selic em 2%. O chamado juro negativo tratava-se de uma grande novidade para o Brasil, um país que historicamente privilegiou uma cultura em que investimentos de baixo risco traziam retornos elevados e desestimulavam os aportes em empresas e em capital produtivo, que naturalmente trazem maior incerteza — apesar de serem muito mais positivos para a economia. Agora, o interesse pela renda fixa deve aumentar — ainda que em menor grau, já que os juros não devem subir a patamares estratosféricos como os de 2016, quando estavam em 14,25%. “Diferentemente do que acontece em outros países, o brasileiro gosta de renda fixa e está acostumado a ganhar dinheiro com ela. Ele vai para bolsa quando a taxa de juros cai muito. Não deveria ser assim, mas existe esse viés”, diz Lucas Radd, superintendente de portfólio do banco Inter. “Felizmente, estamos em um momento muito bom na bolsa, em que as empresas abrem capital e existe um viés de recuperação pós-pandemia, senão o impacto seria bem mais severo.”

EFEITO NEGATIVO - Shopping center no Recife: com o crédito ficando mais caro, menos compras –Marlon Costa/Futura Press

Se juros altos são um sinal de alerta para a economia, eles podem ter consequências positivas em alguns setores, como o câmbio. A teoria econômica diz que, quanto mais altos os juros, mais interesse há do capital estrangeiro em investir em ativos cotados em reais, ainda mais que os juros nos países desenvolvidos permanecem muito baixos em decorrência dos estímulos concedidos para a recuperação pós-Covid-19. Com mais dinheiro estrangeiro entrando no país, há maior oferta de dólar e ele se desvaloriza, eliminando uma das causas para a inflação alta. Outro estímulo pode ser para o mercado imobiliário. Potenciais compradores podem antecipar planos de compra de imóveis ao perceberem que as taxas de juros ficarão mais altas no futuro.

É fato que a ruptura nos padrões dos juros dos últimos meses, com uma subida muito forte — a maior em termos de pontos porcentuais nos últimos dezoito anos —, pode implicar em uma drenagem de liquidez prejudicial aos investimentos e ao mercado de capitais. Mas uma elevação drástica agora pode significar a perspectiva de volta mais rápida aos padrões estabelecidos a partir de 2016. “Quanto mais forte e convicto for o aperto monetário agora, mais rapidamente a gente vai poder voltar a reduzir os juros depois”, avalia Ricardo Lacerda, CEO do banco de investimentos BR Partners. “Com as expectativas de inflação dentro da meta, talvez seja possível entrarmos em um novo ciclo de redução de juros a partir do segundo semestre de 2022.” A partir desse viés otimista, os planos de Guedes expostos na reunião de CEOs em Washington podem ter sido apenas adiados.

Colaborou Felipe Mendes

Publicado em VEJA de 11 de agosto de 2021, edição nº 2750

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