terça-feira, junho 15, 2021
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Luis Stuhlberger: o tímido e inseguro engenheiro que se transformou no maior gestor de fundos do país

Nome completo: Luis Stuhlberger
Local de nascimento: São Paulo
Ocupação: sócio e gestor da Verde Asset Management
Patrimônio sob gestão da Verde: R$ 49 bilhões*
* em 30/11/2020

Quem é Luis Stuhlberger

Em um ambiente predominantemente masculino, competitivo e muitas vezes agressivo, como é o do mercado financeiro, é preciso ser muito bem-sucedido e ter muita coragem para dizer o que o multimilionário (talvez bilionário) Luis Stuhlberger disse sobre como se enxergava no início da carreira:

“Sempre achei que não seria nada na vida. A única coisa que eu tinha para oferecer, até 1979, era o meu histórico escolar. Em todo o resto, era um zero à esquerda. Naquele ano, se tivesse de escrever uma página sobre Luis Stuhlberger, diria que ele fora um dos melhores alunos do Colégio Bandeirantes, um dos melhores estudantes de engenharia da Escola Politécnica da USP, uma pessoa de boa índole, de bom caráter, um bom ser humano. Fora isso, era uma pessoa inexpressiva em todos os campos: no social, no pessoal, na liderança, nos relacionamentos. No meio que eu frequentava, se fosse apontar quem se destacaria, eu era a última pessoa para quem você olharia. Eu não era escolhido para nada. Era do grupo dos feios. A única coisa a meu favor era a inteligência em potencial…. Achava que seria um eterno fracassado, como muita gente que conheço. Gente inteligente, preparada, que fez boa escola, mas que não conseguiu construir nada”.

O autorretrato acima foi narrado por Stuhlberger em 2008, em uma entrevista à revista Piauí. Na ocasião, ano em que estourou a crise financeira global, ele já havia construído muita coisa, entre elas, o Verde, então maior fundo multimercado fora dos Estados Unidos. Na época, o fundo Verde pertencia ao Credit Suisse Hedging-Griffo, gestora de recursos da qual Stuhlberger havia se tornado sócio, depois que o banco multinacional comprou a gestora brasileira.

E ele continuou construindo. Em 2015, fundou sua própria empresa, a Verde Asset Management, que atualmente administra 49 bilhões de reais em ativos. Sob sua gestão estão os fundos multimercados, que somam 26 bilhões de reais. Em 24 anos de existência, o fundo Verde, o original, criado em 2 de janeiro de 1997, rendeu incríveis 18.324%, mais de oito vezes a rentabilidade do CDI. O mais impressionante: só teve perda (-6,4%) em um ano, 2008, auge da crise imobiliária e financeira que começou nos Estados Unidos e se espalhou para o mundo inteiro.

Lilian e a felicidade

Considerado o mais importante gestor do país na atualidade, Stuhlberger credita ao sofrimento dos renegados a persistência e disciplina que desenvolveu nos estudos e no trabalho. Já declarou também que a esposa, Lilian, com quem é casado há 40 anos e tem três filhas, transformou sua vida. “A partir do meu envolvimento com ela, passei a confiar mais em mim a ter uma vida social, a me relacionar com as pessoas, a não ser tão tímido”, disse na entrevista reveladora. Ela, por sua vez, o descreve como meio desajeitado, mas “extremamente inteligente”, alguém que “entendia tudo de cinema, teatro, rock”.

Formado em engenharia civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, a mesma em que seu pai estudou, não queria seria engenheiro. Mas a influência familiar falou mais alto. Seu pai era dono de uma construtora que levava seu sobrenome. Também tinha participação em um banco e em uma petroquímica. Ao se formar em 1977, foi fazer uma especialização em administração na Fundação Getúlio Vargas e passou a trabalhar na corretora do banco, a Hedging-Griffo. O negócio era modesto e ainda estava longe de se tornar uma das marcas mais fortes do mercado financeiro, como ocorreria décadas mais tarde. Stuhlberger não começou pelo mercado de ações, mas pela área que ainda estava sendo criada na empresa, a de commodities. Foi ali, operando no mercado futuro de café e boi, que o atual guru do mercado brasileiro começou a se encontrar.

Seu primeiro grande acerto aconteceu em 1982, quando decidiu desbravar o mercado de ouro, que acabara de se tornar um ativo financeiro, podendo, então, ser comercializado em bolsa. A Hedging-Griffo se tornou uma das corretoras de referência em ouro, o que garantiu a sobrevivência da empresa durante as sucessivas crises que marcaram os anos 80. Há que se lembrar que o Brasil entrou no período de descontrole inflacionário, em grande parte provocado pelo segundo choque do petróleo, que fez o preço do barril explodir a partir de 1979 e 1980, após a revolução iraniana e a guerra entre Irã e Iraque. Os efeitos sobre a dívida externa e a inflação corroeram a economia brasileira.

O choque do petróleo também surtiu efeitos devastadores para os negócios da família Stuhlberger. Em 1980, ele estava feliz da vida. Tinha acabado de se casar, quando a petroquímica de que seu pai era sócio foi para o buraco e o banco teve de ser vendido às pressas para ajudar a saldar as dívidas. A corretora em que Stuhlberger trabalhava teve o mesmo destino. De herdeiro, ele se tornou funcionário. Com pouca experiência, gramou por mais de um ano até começar a ganhar melhores comissões. Em 1982, porém, já era visto como um dos melhores operadores da empresa e Lilian pôde parar de bancar a casa.

A década perdida para o Brasil foi a década de ouro para Stuhlberger, que chegou a ser chamado de “rei” do metal. Em tempos de instabilidade total, o ouro, que tinha a cotação atrelada ao dólar, era um dos ativos mais seguros do mercado. Stuhlberger ganhou fama de sério, de quem faz tudo by the book, o que lhe rendeu um convite do Banco Central para representar instituição diante de todos os operadores de ouro do país. Segundo o então diretor de operações internacionais do BC, Emilio Garofalo, Stuhlberger foi responsável por profissionalizar o mercado de ouro no Brasil.

A criação do fundo Verde

A chegada de Fernando Collor de Mello à presidência acabou com o mercado de ouro no país. A abertura da economia eliminou as disparidades de preços do metal. “O governo dele foi péssimo, mas prestou um serviço ao país, que foi abrir a economia”, afirmou no livro Fora da Curva – Os segredos dos grandes investidores e o que você pode aprender com eles.

No início da década de 90, a nova oportunidade que surgia no horizonte era o mercado de fundos de investimentos, que deslancharia após o Plano Real. A Hedging-Griffo criou a área e Stuhlberger foi trabalhar nela. O marco regulatório do setor ficou pronto em 1995, mas Stuhlberger conta que só teve coragem de montar um fundo em 1997, aos 42 anos. Antes disso, tratou de estudar e se preparar para encarar a responsabilidade de investir o dinheiro de terceiros em uma modalidade que considerava de alto risco, mas que podia entregar resultados espetaculares, se fossem bem administrados. Coragem, medo, responsabilidade e cautela, são palavras a que o gestor recorre com frequência e que são reveladoras de sua personalidade.

Antes de abrir o Verde, 1997, Stuhlberger fez uma espécie de estágio. Propôs a Ibrahim Eris, ex-diretor do BC e sócio de uma gestora de recursos, a Linear, que ele montasse um fundo de investimento e a Hedging-Griffo indicaria seus clientes para investir nele. Eris topou, e durante dois anos Stuhlberger acompanhou de perto o trabalho da Linear, até que, em 2 de janeiro de 1997, abriu seu próprio fundo, o Verde (nome inspirado nas commodities, área em que começou a carreira, na cor do dólar e na do Palmeiras, seu time de futebol).

O Verde foi criado com patrimônio de 1 milhão de reais. Metade veio de um incentivo da então Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) — que tentava fomentar o mercado no país – e metade com alguns outros clientes. O investimento mínimo era de 5 mil reais. O capital era investido em ações, moedas de vários países, juros e outros diversos tipos de contratos futuros, ou seja, era um multimercado desde o início.

A crise da Ásia, em outubro de 1997, revelou o primeiro grande acerto de Stuhlberger à frente do Verde. Enquanto a maior parte do mercado apostava na estabilização da economia brasileira, Stuhlberger enxergava um cenário pouco auspicioso. Ele apostou que os juros subiriam. E subiram. Na verdade, mais que dobraram naquele ano, e o Verde fechou o primeiro ano com 29% de ganho. “O preço das commodities estava lá embaixo, havia um déficit de conta corrente de 30 bilhões de dólares e uma política fiscal que dava déficit primário. Eu achava que a única maneira que o governo teria de não desvalorizar o real em relação ao dólar, que era a base da política de estabilização, seria aumentar as taxas de juros”, relatou à jornalista Giuliana Napolitano, coautora do livro Fora da Curva.

Na ocasião, o Banco Central era comandado por Gustavo Franco, que mantinha a paridade do real com o dólar. No dia 23 de outubro, o BC fixou a Selic em 19%. Boa parte dos investidores compraram contratos futuros de juros naquele patamar, apostando que os juros cairiam.

Ocorre que, no dia seguinte, a Ásia começou a derreter com a desvalorização da moeda tailandesa. Stuhlberger comemorava seu aniversário em um almoço com os colegas de trabalho, quando recebeu uma ligação sobre a piora asiática. Ainda no restaurante deu ordem de compra de contratos futuros de juros, apostando na alta da Selic. Nos dias seguintes, a crise se espalhou como rastilho de pólvora pela Ásia, Estados Unidos e Europa. No Brasil, na tentativa de evitar fuga de capitais, o BC elevou a Selic de 19% para 40%. O saldo para o mercado foi desolador. Muita gente perdeu dinheiro. O banco Garantia, ícone do mercado financeiro, foi tão afetado que acabou vendido.

A aposta nas verdinhas

Outra tacada de Stuhlberger que entrou para história do mercado financeiro brasileiro ocorreu na virada de 1998 para 1999. Sua filha caçula havia nascido em 18 de dezembro, data em que ele completava 18 anos de casamento com Lilian. Foi a esposa que sugeriu que ele viajasse com as duas filhas mais velhas. Ela ficaria em casa, pois estava amamentando. Os três foram para Foz do Iguaçu e para Buenos Aires. Antes disso, porém, ele tomou uma decisão: fez um enorme investimento em dólar na BM&F para proteger o patrimônio do Verde. Ele vinha angustiado com a situação da economia. Achava que a paridade entre real e dólar não tinha mais como se sustentar. Em 13 de janeiro, enquanto visitava as cataratas do Rio Iguaçu com as filhas, foi informado pelo telefone que Gustavo Franco caíra. O Verde lucrou alto com a subida do dólar, que saiu de 1,20 para 2 reais em um mês. Para completar, orientou que o fundo comprasse ações de empresas exportadoras (que passariam a exportar mais com o real desvalorizado e teriam alta em seus papeis). Em 1999, o Verde fechou com rentabilidade de 135%. O patrimônio do fundo, que era de 5 milhões de reais, dobrou.

Contra a corrente

Ano de eleição costuma gerar turbulência no mercado. Mas no início de 2002, final do governo Fernando Henrique Cardoso, a situação era tranquila. As previsões davam conta da vitória de José Serra, tucano que sucederia o presidente de seu partido, a quem Stuhlberger classifica como o melhor que o Brasil já teve. Mesmo assim, ele investiu em juros e câmbio, que protegeriam o patrimônio do Verde, caso a volatilidade aumentasse. Até abril, a chance de Lula ganhar era mínima. A situação mudou de figura em junho, e o mercado ficou nervoso com a possibilidade de o PT chegar ao poder. O dólar explodiu (chegando a quatro reais), a bolsa caiu e o verde ganhou 48% naquele ano.

Um encontro com Aloizio Mercadante, um dos fundadores do PT, também serviu para que Stulhberger investisse também em ações e garantisse ganhos para 2003. Os dois se encontraram um evento no final de 2002, e Mercadante afirmou que o PT não quebraria o Brasil, que Lula não era maluco, e se ofereceu para fazer uma apresentação na Hedging-Griffo.

Stulhberger aceitou e, ao final da palestra, o gestor estava convencido de que Lula manteria os fundamentos econômicos criados pelos tucanos. Em sua análise, a turbulência se dissiparia ao longo de 2003. Ele decidiu se desfazer das posições que apostavam na crise. A bolsa também deveria se recuperar. Esta última convicção foi formada durante um almoço com um o sócio de uma grande empreiteira, que conhecia política a fundo. Segundo o empresário, Lula colocaria o Congresso no bolso, o que ajudaria a economia andar. Era hora, portanto, de comprar ações. A bolsa subiu 100% no primeiro ano do governo petista e o Verde fez muito dinheiro com os papeis comprados na baixa.

Não deixa de ser interessante a cautela das proteções feitas pelo gestor no início de 2002 e a audácia de apostar em um governo que a maioria via desconfiança. Segundo ele, o importante é dar atenção às pessoas certas e tentar evitar as que estão fazendo as análises erradas. Mas é claro que é impossível acertar sempre. E Stuhlberger errou durante a crise de 2008. Quando a crise imobiliária e bancária estourou, o Verde teve bom rendimento com a posição que apostava na alta do dólar. Em seguida, porém, Stuhlberger se convenceu que a injeção de liquidez que estava sendo feita pelos bancos centrais daria resultado. O negócio era investir em ações, já que a Bovespa havia despencado. O problema foi que a bolsa demorou a valorizar e o fundo encerrou o ano com o primeiro prejuízo de sua história (-6,4%). Segundo o gestor, não houve grande problema de liquidez, mas a experiência foi dolorosa. Em outubro de 2008, na carta mensal do Verde endereçada a seus investidores, Stuhlberger escreveu:
“Nos quase doze anos de existência do fundo Verde, os maiores e espetaculares retornos certamente vieram de ser um “contrarian investor”, não seguindo o comportamento da massa naquele momento.

Para deixar muito claro, ser contrarian não é necessariamente bom e pode ser até uma tendência suicida se não for bem ponderada. O importante nessa história é conseguir enxergar a equação risco/retorno/geração de valor num horizonte mais longo de tempo, tendo às vezes que passar por momentos de grande pressão no curto prazo.

A cura para a dor de 2008 veio em 2009, quando o Verde fechou o ano com 50,37% de rentabilidade.

A essa altura, Stuhlberger já havia feito uma fortuna multimilionária por conta própria, longe dos negócios do pai. A Hedging-Griffo havia sido vendida em 2006 ao Credit Suisse First Boston, que pagou 635 milhões de reais por 50% (mais uma ação) da gestora brasileira. Na época, os sócios principais tinham 51% da HG, enquanto 70 minoritários detinham 49%. Ou seja, mesmo os menores levaram uma bolada.

A venda ao CSFB previa que Stuhlberger permanecesse oito anos na empresa. Em 2015, as duas partes encontraram uma saída, já que o gestor não pretendia se aposentar, nem se tornar funcionário do Credit.

Stuhlberger montou uma nova gestora, a Verde Asset Management, da qual é controlador e o Credit Suisse minoritário. A nova empresa administra o fundo Verde original, outros multimercados e fundos de ações que eram do Credit Suisse.

Aos 66 anos, Stuhlberger afirma que nem pensa em se aposentar. Segundo ele, o George Soros está com 90 anos e continua trabalhando muito bem. O neto de judeus poloneses, que imigraram para o Brasil nos anos 1920, também não tem preocupação com o destino do Verde, caso saia do comando. “Muita gente me falava que, quando eu me aposentasse, a Verde fecharia. Hoje eu tenho 100% de certeza que isso não vai ocorrer: a Verde vai estar sempre ligada a mim, mas o Parreiras que já gere uma parte importante do portfólio e já se tornou um excelente gestor. Inclusive, fico até com ciúmes quando o fundo dele está rendendo melhor do que o meu”, afirmou Stuhlberger no podcast Stock Pickers, do InfoMoney. Luis Parreiras é o braço-direito de Stuhlberger na Verde. Os dois trabalham juntos há 18 anos.

Para saber mais

Livros

  • Fora da Curva: Os segredos dos grandes investidores do Brasil – e o que você pode aprender com eles (Florian Bartunek, Giuliana Napolitano e Pierre Moreau)
  • Bilhões e lágrimas – A economia brasileira e seus atores (Consuelo Diegues)

Podcast

Matérias

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