quinta-feira, maio 13, 2021
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Qual será a próxima bolha financeira?

*por Isac Costa

Diante do excesso de liquidez nos mercados, temos testemunhado uma sequência interessante de episódios de fortes valorizações de ações e de instrumentos alternativos (Bitcoin e outros criptoativos) e o surgimento das Special Purpose Acquisition Companies (SPACs), companhias “cheque em branco” que captam para depois investir. 

Ainda, inúmeras empresas inovadoras têm recebido aportes substanciais, tendo o seu valor de mercado como o principal referencial de potencial “exponencial” de crescimento – fintechs, edtechs, proptechs, healthtechs. Hoje, algumas delas são unicórnios e valem mais do que companhias tradicionais.

Somando a esse quadro as medidas de flexibilização para obtenção de crédito, tais como as que podem ser previstas na iminente medida provisória em estudo pelo Poder Executivo – como a criação de uma Central de Gestão de Garantias, a atualização do valor de imóvel para a obtenção de um novo financiamento e o uso de recursos de fundos de previdência complementar para a prestação de garantias –, vale mencionar, ainda, os esforços do Banco Central para desenvolver o mercado de duplicatas escriturais e os recebíveis de arranjos de pagamento.

A recuperação econômica pós-pandemia certamente dependerá de acesso facilitado a crédito por pessoas físicas e empresas e do fortalecimento do mercado de capitais. A regulação opera em ciclos, ora mais rigorosa, às vezes mais flexível, procurando auxiliar o desenvolvimento econômico (ou, ao menos, não o atrapalhar). 

Infelizmente, a insuficiente educação financeira, o foco em retornos de curto prazo, o excesso de otimismo e o efeito contraste (peso de eventos recentes na nossa percepção) nos fazem correr riscos que não correspondem a elevados retornos esperados.

O mercado financeiro não é um lugar propício para pessimistas. Só há retorno com riscos e os navios foram feitos para enfrentar os mares e não para permanecerem seguros no porto. Navegar é preciso, viver não é preciso. E mar calmo não faz bom marinheiro. 

Quem fala sobre bolhas e catástrofes não é bem recebido, notadamente em momentos de euforia, com o aumento do número de pessoas físicas operando na Bolsa e recordes de ofertas públicas. Parece que a pessoa está de fora e, ressentida, quer agourar quem está na festa. Ainda, um relógio quebrado sempre tem a hora certa duas vezes no dia, então cedo ou tarde virá uma correção mais forte e o arauto do apocalipse poderá clamar para si o dom profético e dizer a frase que nunca ajudou absolutamente ninguém: “Eu avisei”.

Se o unicórnio representa a pureza, é preciso lembrar que foi o pecado que resultou na maldição da mula sem cabeça. E um grande pecado no mercado financeiro é a perda do controle das emoções. Pensar sobre bolhas nos ajuda a observar o comportamento dos investidores e o nosso próprio comportamento em face do mercado. Precisamos fugir do viés de confirmação, quando buscando apenas dados que corroborem nossas expectativas, ignorando sinais de alerta. É preciso ceticismo metódico e seletividade para questionar pontos cegos em pitches de vendas, projeções excessivamente otimistas e, sobretudo, se o impacto ou a probabilidade da materialização de certos riscos não estão sendo subestimados.

Investir não é – ou não deveria ser – sinônimo de comprar um bilhete de loteria. O modo como lidamos com o nosso dinheiro diz muito sobre nós, afetando nossos sentimentos, revelando quem somos, qual o nosso nível de autoestima, nossas inseguranças e como nos comportamos em grupo. 

O surgimento das bolhas não é silencioso. Pelo contrário, os sinais de alerta sempre são bastante eloquentes, porém, só se revelam assim, misteriosamente, em análise retrospectiva. Não vemos a tentação como tal e somos convidados por aqueles que não necessariamente se importam com os nossos interesses, que tomamos como amigos bem-intencionados ou, talvez, gurus. Há vários livros sobre manias, pânicos e crises cujas leituras nos fazem questionar por que razão o desastre não foi evitado. 

Não quero ser profeta, geralmente os bons viviam na miséria ou em constante desencanto com o mundo, e os falsos, embora gozassem de regalias e prestígio, cedo ou tarde eram desmascarados. 

Seja qual for a próxima bolha, é bom lembrar que o mercado e a sua vida financeira, assim como seu trabalho, são o jogo infinito, noção destacada por Simon Sinek, em livro com este mesmo nome, fazendo contraposição ao jogo finito, que tem objetivo definido e tempo predeterminado. Em um jogo infinito, a meta é permanecer no jogo o máximo de tempo possível, não ser expulso, as regras mudam e os oponentes são desconhecidos.

Uma perda relevante pode destruir anos de trabalho, poupança e boas decisões de investimento. “A bolha pontocom ficou para trás, junto com 2008. Dessa vez é diferente”. O problema não está nas SPACs, nas fintechs, nos unicórnios, nos criptoativos, na bolsa ou em produtos de crédito que poderão ser criados no futuro. As bolhas surgem por nossa própria culpa. O longo verão pode nos fazer esquecer do inverno, que, inevitavelmente, chegará. Estamos preparados?

*Isac Costa é consultor em regulação financeira e professor de Direito Empresarial do Ibmec SP

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