sexta-feira, março 5, 2021
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Efeito intervenção: os bancos e casas de análise que cortaram a recomendação para as ações da Petrobras

SÃO PAULO – Após os últimos acontecimentos desde a noite da última sexta-feira (22), com o anúncio do governo da indicação do governo do general Joaquim Silva e Luna para presidência da Petrobras  (PETR3;PETR4) , em substituição a Roberto Castello Branco, em meio às críticas do presidente Jair Bolsonaro sobre o reajuste de combustíveis, diversas casas de análise já reduziram para equivalente à venda ou colocaram a recomendação das ações da estatal em revisão.

Dentre elas, XP Investimentos, Credit Suisse e Bradesco BBI (que cortaram fortemente a recomendação e o preço-alvo), enquanto o Morgan Stanley suspendeu a recomendação. Confira abaixo os principais pontos para as revisões de recomendação:

XP Investimentos

Recomendação anterior: neutra, preços-alvos de R$ 32 para os ativos PETR3 e PETR4
Recomendação atual: venda, preços-alvos de R$ 24 para os ativos PETR3 e PETR4

A XP rebaixou a recomendação das ações da Petrobras de neutro para “venda” revisando, ao mesmo tempo, o preço-alvo do papel para R$ 24,00, de R$ 32,00: “não há mais como defender”, apontam os analistas.

Em relatório distribuído no último domingo, o analista Gabriel Francisco atribuiu a alteração à sinalização negativa em termos da perspectiva de governança da estatal e à atual gestão de preços com o anúncio de substituição do presidente da companhia.

O governo anunciou na sexta-feira a troca de Roberto Castello Branco pelo general Joaquim de Silva e Luna para comandar a Petrobras.

“Vemos esse anúncio como uma sinalização negativa, tanto de uma perspectiva de governança, dados os riscos para a independência de gestão da Petrobras, como também por implicar riscos de que a companhia continue a praticar uma política de preços de combustíveis em linha com referências internacionais de preços, ou seja, que reflitam as variações dos preços de petróleo e câmbio”, diz Francisco.

Segundo a XP, existem muitas incertezas para justificar uma tese de investimento na Petrobras. “Acreditamos que as ações deverão daqui em diante negociar com um desconto mais alto em relação ao histórico e a outras petroleiras globais”, acrescenta no relatório.

Francisco nota ainda que “as incertezas para a política de preços de combustíveis da Petrobras implicam uma menor correlação das ações em relação aos preços do petróleo daqui para frente, dados os riscos de que não sejam totalmente repassados aos preços dos combustíveis. Com isso, esperamos uma deterioração nos resultados no futuro, não apenas devido às margens de refino mais baixas, mas também devido aos riscos que a Petrobras deva realizar importações de combustível com prejuízo para evitar qualquer risco de desabastecimento no mercado local”.

Bradesco BBI

Recomendação anterior: neutra, preço-alvo de R$ 34 para PETR4 e de US$ 13 para o ADR PBR
Recomendação atual: underperform (desempenho abaixo da média do mercado), com preço-alvo de R$ 24 para PETR4 e de US$ 9 para o ADR PBR

O Bradesco BBI reduziu novamente a recomendação para as ações da Petrobras depois de já tê-lo feito em 8 de fevereiro em meio às dúvidas sobre a política de preços da companhia.

Agora, depois do anúncio da indicação de mudança dos CEOs, os analistas Vicente Falanga e Gustavo Sadka apontaram que o novo corte reflete a longa lista de perguntas sem resposta caso a mudança de comando seja confirmada.

Entre estas questões críticas para o caso de investimento da Petrobras, os analistas destacam seis em especial: (1) Qual será a nova política de preços de diesel da Petrobras? ; (2) Os recentes reajustes no preço do diesel podem ser revertidos (com desconto atual de 4% atualmente na paridade internacional)? ; (3) a Petrobras continuará a buscar ativamente a venda de refinarias em um ano pré-eleitoral? (4) as empresas ainda estarão interessadas em comprar refinarias e / ou o processo pode ser atrasado materialmente e / ou com valuations significativamente mais baixos? ; (5) os esforços de capex se concentrarão no pré-sal, com campos de mais alto retorno ou vai se desviar para outros fins? e (6) se o conselho mudar materialmente, a política futura de pagamento de dividendos da empresa (60% do fluxo de caixa operacional) também vai mudar?

Os analistas também destacam o que esperar de uma potencial nova política de preços de diesel. No relatório do início do mês em que rebaixaram as ações para neutra, os analistas destacaram os riscos crescentes da capacidade da Petrobras de precificar o diesel dadas as constantes reclamações dos caminhoneiros.

“Uma das demandas dos motoristas era por aumentos mais previsíveis / menos frequentes, o que provavelmente é o que
uma nova gestão da Petrobras poderia procurar implementar. Se fosse esse o caso, em um cenário em que os preços do petróleo continuam subindo, o desconto para a paridade internacional pode aumentar significativamente. Um efeito colateral poderia ser uma redução repentina nas importações, o que obrigaria a Petrobras a mudar o seu mix de refino de óleo combustível para diesel e/ou forçar a Petrobras a importar combustível com milhões em perdas de lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (estimativa de perdas de US$ 900 milhões para cada desconto de 10% do diesel e da gasolina”, apontam os analistas.

Credit Suisse

Recomendação anterior: outperform (desempenho acima da média do mercado), preço-alvo de US$ 16 para o ADR PBR da Petrobras
Recomendação atual: underperform, com preço-alvo de US$ 8 para o ADR PBR

O Credit Suisse destaca que, de acordo com o estatuto da Petrobras, a nomeação de um novo CEO não pode ser feito diretamente pelo acionista majoritário. Em vez disso, deve ser solicitado e aprovado pelo Conselho de Administração.

“Nós acreditamos que a atual equipe executiva provavelmente permanecerá pelo menos até o final de seus mandatos em 20 de março. Isso porque o novo CEO da Petrobras precisa primeiro ser nomeado pelos diretores e, além disso, o nome deve ser aprovado pelo Comitê, para cumprimento de diversas regras de elegibilidade”, apontam os analistas Regis Cardoso e Marcelo Gumiero.

Os analistas também destacam mudanças no seu modelo apontando que, embora os riscos não tenham se materializado totalmente, é muito improvável que os preços das ações da estatal reflitam o mesmo prêmio de risco incorporado no preço-alvo anterior.

Cardoso e Gumiero ressaltam os riscos para o case de investimentos, com as principais incertezas agora se referindo à (i) continuidade da política de preços da Petrobras atrelada à paridade internacional, particularmente para gasolina, diesel e
GLP e (ii) mudanças no plano de negócios, com potencial aumento nos níveis de capex e interrupção do plano de desinvestimento. “Se os preços da Petrobras divergirem estruturalmente da paridade de importação, isso poderá dificultar os desinvestimentos das refinarias. Caso esse cenário se materialize, nossa preocupação também com a Petrobras aumentando os níveis de capex e retomando os investimentos em downstream (as atividades de transporte, comercialização e refino de petróleo e ainda transporte e comercialização de derivados de petróleo)”, avaliam.

Morgan Stanley

Recomendação anterior: overweight (exposição acima da média do mercado), com preço-alvo de US$ 16,50 para o ADR PBR da Petrobras
Recomendação atual: sem recomendação

Já os analistas do Morgan Stanley suspenderam a recomendação para a Petrobras, que antes era overweight (exposição acima da média do mercado) com preço-alvo de US$ 16,50 para os ADRs PBR (equivalente à ordinária).

“Um caso de intervenção parece estar se desenrolando. Temos uma forte visão de que a Petrobras está em uma situação financeira muito melhor hoje e que controles moderados de preços de combustível não afetariam materialmente o perfil de fluxo de caixa livre. Mas a percepção de risco aumentou drasticamente, adicionando um fator de risco”, apontam Bruno Montanari e Guilherme Levy.

Para os analistas, o caso mais negativo de intervenção não deve causar grande impacto nas finanças da Petrobras no curto prazo. “Internamente, executamos diferentes cenários de sensibilidade sobre o impacto de diversos níveis de desconto no preço do combustível sob um ambiente Brent de US$ 65 o barril e cenários para taxas de câmbio. Em um cenário de intervenção moderada, com 10% de desconto por um ano inteiro, e Petrobras aumentando os volumes de importação para abastecer o mercado com prejuízo, o impacto no Ebitda e no fluxo de caixa livre seria de US$ 4,0 bilhões e US$ 2,3 bilhões, respectivamente, o que não é material em comparação com nosso estimativas do caso base. O fluxo de caixa livre sofreria um impacto de 360 ​​pontos-base e a relação entre a dívida líquida e o Ebitda aumentaria marginalmente, em 0,3 vez. O Ebitda por barril de refino da Petrobras ainda seria de US$ 1,50, contra nosso caso base de US$ 4,30”, apontam.

Eles ressaltam que a empresa é muito mais resiliente hoje em comparação com os anos de intervenção anteriores de 2012-2015 avaliando que, no pico de intervenção passado durante a administração da ex-presidente Dilma Rousseff, a Petrobras estava executando margens de refino negativas, tinha uma relação entre dívida líquida e Ebitda de 6,3 vezes e, por um longo período de tempo, a empresa esteve à beira de um potencial default. Atualmente, todos esses indicadores são materialmente mais fortes. A dívida líquida, em particular, diminuiu mais de 50%, de US$ 132 bilhões para US$ 66 bilhões.

De qualquer forma, os analistas apontam que a percepção de risco aumentará ainda mais, e eles esperam por algum grau de repercussão para o setor como um todo, embora não para o mesmo nível do ciclo de intervenção anterior. Nos últimos dois anos (excluindo o período de volatilidade da Covid-19), as ações da Petrobras foram negociadas com um desconto de 5% a 15% ante os pares internacionais. O Morgan aponta ser provável que a ação seja negociada com um desconto maior em um futuro próximo, embora não tão pronunciado quanto um desconto de 40% durante o pior dos anos de intervenção anteriores.

“Além disso, acreditamos que uma nova onda de intervenção poderia afetar potencialmente o programa de desinvestimento da empresa (refinarias em particular) e o clima geral de investimento no Brasil em algum grau. Não esperamos, no entanto, ver um efeito cascata semelhante ao soberano versus quando a Petrobras estava em risco de inadimplência”, apontam.

Eles ressaltam que vão avaliar como o mercado vai se comportar nas próximas semanas e monitorará os novos desenvolvimentos, como uma possível saída de membros do Conselho. “Embora possamos concluir que a tese fundamental pode não ter mudado de forma material, os fundamentos provavelmente não serão o principal impulsionador da ação no curto prazo, e veremos uma percepção de risco muito maior no setor, o que poderia resultar em uma taxa de desconto mais ampla e negociação de descontos múltiplos em comparação com pares internacionais”, avaliam.

Itaú BBA

Recomendação anterior: outperform (exposição acima da média do mercado)
Recomendação atual: sem recomendação

O Itaú BBA  disse que vê a mudança de gestão como abrupta como indicação de que o governo pretende ampliar seu envolvimento nas operações da petroleira, mas destaca que a alteração ainda deve demorar um mês, envolvendo a mudança no conselho da empresa, à medida que deve passar por uma nova reunião de acionistas, o que leva um mês.

O Itaú diz acreditar que a maior parte da incerteza vai ser uma reação à política de preços no curto prazo, e a como a gestão impacta a venda das refinarias, que vinha avançando “significativamente”,

Em sua análise, o banco presume que a Petrobras manterá seus preços de diesel e gasolina abaixo da paridade internacional, e que outros atores deixarão de importar combustível, o que obrigará a Petrobras a aumentar suas próprias importações para dar conta da demanda doméstica.

E afirma que a tese a favor da Petrobras se baseava na redução de risco em torno da empresa e redução de dívidas. Ambos os pontos foram prejudicados pela decisão do presidente. Devido às incertezas atuais, o banco suspendeu sua avaliação de risco e de preço-alvo para a Petrobras.

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