quinta-feira, março 4, 2021
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A Bolha da Mundial: conheça uma das histórias mais trágicas da bolsa brasileira

[texto enviado originalmente na Newsletter do Stock Pickers no último sábado, 13 de fevereiro. Para receber a newsletter, basta clicar aqui e colocar seu melhor email].

Pedi esse espaço da escrita ao Renatão pois quero contar uma das histórias mais bizarras que já presenciei nos meus quase 13 anos de mercado financeiro: a “Bolha do Alicate”, que aconteceu em 2011 envolvendo as ações de uma empresa cujo nome nós, palmeirenses, tivemos que ouvir muito nesta semana: a Mundial.

Antes de falar “da Mundial” na bolsa, uma reflexão importante sobre “o Mundial” de futebol. A derrota do Palmeiras pode ter sido dolorosa para o torcedor, mas se tem uma coisa que o mercado me ensinou é que a análise relativa é tão importante (se não mais) do que a análise absoluta.

Exemplo simples para entender: tirar 2 em uma prova que vale 10 é bom ou ruim? Uma análise absoluta diria que é ruim, mas se eu te disser que a média da sala foi 0,5? No relativo, você foi 4x mais inteligente que a média.

Eu sei, na “vida real” essa história jamais colaria com nossos pais na época de escola, mas o fato é que um resultado “bom ou ruim” depende do que você usa de referência, ou o seu “benchmark’ (pra usar um termo tosco de “faria limer”). E no relativo o Palmeiras teve um ano espetacular se comparar com seus benchmarks (no caso, os rivais): ganhou dois títulos em cima deles (Paulistão sobre o Corinthians e Libertadores sobre o Santos) e ainda viu o São Paulo deixar escapar a conquista do Campeonato Brasileiro.

A auto-análise relativa (isso é, comparar o Palmeiras com ele mesmo) é ainda mais favorável: em novembro, o sentimento era de que a temporada já tinha ido pro ralo e o foco era na reestruturação com a chegada do ainda desconhecido treinador português Abel Ferreira. Se o Palmeiras fosse uma ação na bolsa (PALM3), daria para fazer um paralelo com a Cogna (COGN3): pode dar muitas alegrias no longo prazo aos seus acionistas, mas não cobre bons resultados no curto prazo.

Felizmente, diferente da Cogna, PALM3 disparou de volta às máximas históricas nestes 3 meses. As derrotas no Mundial Interclubes, por mais doloridas que sejam, não apagam o “rali” do Palmeiras nesse período, principalmente se olharmos de fato pro lado “financeiro”: todas essas conquistas renderam ao Palmeiras mais de R$ 180 milhões em premiações – e se ganhar a final da Copa do Brasil agora contra o Grêmio, serão mais R$ 30 milhões no cofre alviverde. COMPRE PALM3!!! (Calma, CVM: isso não é uma recomendação de investimento).

Indo de Mundial Interclubes para Mundial S.A.

Resumindo em um parágrafo a história: a Mundial, uma fabricante gaúcha de válvulas, talheres, alicates e produtos de beleza, viu suas ações subirem 3.300% entre 6 de abril e 19 de julho, para depois caírem 86% entre 20 e 22 de julho (só no último dia, a queda foi de 76%). A alta foi impulsionada por uma combinação de uma bela narrativa com movimento orquestrado de investidores comprando as ações e o nome “Bolha do Alicate” foi dado por causa do principal da empresa.

O gráfico abaixo dá uma noção da intensidade do movimento de MNDL3, mas olhe com atenção os dois mini gráficos (de volume financeiro e número de negócios), pois é aí que mora a parte triste da história, que só quem acompanhou em “tempo real” isso sabe a agonia que foi para os investidores que entraram no fim da festa (ou no fim da bolha).

(Fonte: Nelogica. Obs: os preços das ações estão ajustados pelos vários grupamentos feitos pela empresa de lá pra cá; nos valores da época, a ação MNDL3 saiu de R$ 0,23 para R$ 7,00 e mergulhou de volta para R$ 0,94 no dia 22 de julho).

Na prática: um investidor que comprou R$ 1.000 em ações da MNDL3 no começo de abril viu seu capital virar R$ 34.000 no ápice da euforia e depois cair até R$ 4.500. Olhando assim, pareceu um bom negócio esse lucro de R$ 3.500, certo? O problema é que, como as barras de volume financeiro mostram, o grosso dos investidores entrou na ação na segunda metade de junho, quando os preços já estavam muito inflados. Ou seja: a maioria entrou pra pagar a conta dos poucos que chegaram antes na festa.

Um detalhe que o gráfico acima não mostra mas eu lembro muito bem no fatídico dia 22 de julho (dia que a ação caiu 76%) é o desespero de quem estava comprado e não conseguia vender os papéis. Por causa da enxurrada de vendedores querendo se livrar de MNDL3, a bolsa congelou os negócios com o papel e eles só foram negociados em “três instantes” diferentes do dia – um durante a manhã, outro de tarde e outro no fechamento. A ação não conseguiu ficar 1 minuto inteiro sendo negociada naquele dia, era “abriu, despencou, congelou”. Mesmo quem queria vender ou tinha um “stop loss” na operação não conseguiu evitar o pior.

Pior que isso, só as histórias que ouvimos na redação do InfoMoney (eu era repórter de lá na época), de investidores que estavam “termados” no papel (termado: usar o mercado a termo para ficar “alavancado” em uma ação). Por causa da alavancagem, esses aí perderam muito mais do que tinham. É pior do que “game over”, pois agora esse cara ficou devendo para a corretora e teve que entregar o que tinha e o que não tinha para quitar suas dívidas.

O que fez a Mundial subir?

Já ouvi de mais de um investidor que “uma tese de investimento nada mais é do que uma história bem contada”. E a Mundial conseguiu, através de um esforço de “marketing” da própria empresa e de assessores de investimentos, criar uma bela narrativa: promessas de melhorias operacionais, parcerias com investidores internacionais, migração para o Novo Mercado fizeram parte deste roteiro, que foi apresentado em várias palestras para investidores em corretoras (se já existisse Zoom ou Instagram naquela época, talvez essa bolha não tivesse demorado 3 meses pra nascer).

Mas essa linda história não seria nada se não tivesse um público aplaudindo e pedindo bis: é aí que entra a parte braçal do negócio: segundo a CVM, as investigações pós-estouro da bolha revelaram um conjunto de operações com características de manipulação do mercado e negociação com uso de informação privilegiada realizadas por um grupo de investidores.

Isso é o que no mercado é chamado de “Zé com Zé”, quando dois (ou mais) investidores se unem para fazerem vários negócios com uma ação de forma a inflar o preço dela. Mas fazer isso dá certo é quase como fazer um carro “pegar no tranco”: se o carro não ligar, você vai ficar empurrando até não ter mais fôlego. No mercado, o “fôlego” seria o dinheiro dos Zés e o carro ligar seriam outros investidores comprarem a tese.

Na Mundial, o tranco funcionou muito bem. O frenesi em torno da fabricante de alicates (eu gosto de enfatizar isso para lembrar que não estamos falando de alguma empresa disruptiva, mas de uma… fabricante de alicates) era tão grande que a MNDL3 iria tornar-se elegível para entrar no Ibovespa devido ao volume financeiro expressivo em bolsa. Com isso, todos os fundos de investimentos cujo mandato é acompanhar o Ibovespa iam ter que comprar MNDL3, gerando uma demanda extra no papel. Foi aí que finalmente o ligou o alerta da B3 (na época, BM&FBovespa).

Com a Bolsa vetando a entrada da Mundial no Ibovespa, o mercado parece que caiu na real de que uma fabricante de alicates não poderia aumentar em 34 vezes seu valor de mercado em tão pouco tempo. Como toda bolha, o estouro dela foi muito mais rápido do que a velocidade de alguém explicar o que estava acontecendo.

Que fim levou?

No final de 2012, mais de um ano depois do estouro da bolha, o Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul apresentou denúncia contra 10 pessoas por três crimes: formação de quadrilha, manipulação de mercado e insider trading. Entre os 10 acusados, estavam assessores de investimentos e o presidente da Mundial.

Todos foram absolvidos pelo crime de formação de quadrilha. Sobre os outros crimes, a última decisão proferida veio do TRF4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) em dezembro de 2019, absolvendo dois envolvidos pelos crimes de manipulação de mercado e uso de informação privilegiada (leia a íntegra da decisão aqui).

Após tudo isso, a Mundial não conseguiu autorização para entrar no tão sonhado Novo Mercado. Hoje, ela está na categoria “Walking Dead” da bolsa: o último negócio feito com a ação foi em 16 de outubro de 2020 e o valor de mercado da empresa atualmente é de R$ 63 milhões.

Moral da história: Cuidado com histórias “boas demais pra serem verdade”, provavelmente elas não são verdade. E se mesmo assim você quiser pagar pra ver, vai com pouco dinheiro e nunca se alavanque em um negócio desses.

Eu já presenciei várias “mini Mundiais” na bolsa e o roteiro é sempre o mesmo: o primeiro ato é um rumor, geralmente envolvendo uma empresa em dificuldades e com baixíssima liquidez na bolsa, que começa a circular em grupos de whatsapp ou até fóruns da internet; no segundo ato, vem o movimento no preço das ações e aumento do volume (o “Zé com Zé” que vimos lá em cima). Se a história colar no mercado, o papel explode e os “Zés” saem de cena com um belo lucro.

Você pode ser muito vitorioso mesmo sem encontrar aquele tão sonhado Mundial – seja na bolsa, seja no futebol.

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