Guilherme Campos tem voltado sua atenção a um movimento que vem ganhando contornos cada vez mais nítidos na economia brasileira: o deslocamento de parte do dinamismo nacional para a Região Norte. Segundo a Resenha Regional do Banco do Brasil, a região deve crescer 2,5% em 2026, desempenho acima da média nacional projetada em 2,0%, superando inclusive polos tradicionais como o Sudeste, que deve avançar 1,7% no mesmo período.
Esse resultado não é um evento isolado. Ele se conecta a uma série de transformações estruturais que vêm reposicionando o Norte do país no mapa de investimentos, infraestrutura e logística, uma mudança que, se sustentada, pode alterar significativamente o equilíbrio econômico regional brasileiro nas próximas décadas.
Portos e logística: a porta de entrada de um novo ciclo
Um dos indicadores mais reveladores desse movimento está nos portos da região. Levantamentos recentes mostram que os portos do Norte lideraram o crescimento entre todas as regiões do país em 2025, consolidando a chamada rota do Arco Norte como alternativa logística cada vez mais competitiva para o escoamento da produção nacional. Esse desempenho representa mais que uma alternativa logística: trata-se de uma nova fronteira de eficiência para o país, capaz de tornar o agronegócio brasileiro mais competitivo internacionalmente.
Esse avanço não se sustenta apenas nas exportações agrícolas. A movimentação de minérios, como a bauxita, que somou 24,8 milhões de toneladas no período, reforça que o crescimento logístico da região tem múltiplas frentes. A expansão simultânea de portos públicos estratégicos, como Santarém e Vila do Conde, e de terminais privados sinaliza um ambiente de negócios que vem sendo descrito por especialistas do setor como cada vez mais seguro e atrativo para novos investimentos.
Como o agronegócio pode impulsionar a transformação territorial nas regiões rurais?
A força econômica da Região Norte está diretamente ligada à expansão do agronegócio em seu território. As áreas de plantio de soja na região apresentam tendência de expansão desde o início do século, tornando estados como Pará, Tocantins e Rondônia destinos cada vez mais relevantes para investimentos voltados à exportação de grãos. A pecuária também acompanha esse movimento: o Pará já figura entre os estados com maior rebanho bovino do país, evidenciando a diversificação produtiva que sustenta o crescimento regional.
Esse avanço agrícola, observa Guilherme Campos, tem efeitos que vão além da produção rural. Ele pressiona cidades do interior da região a se adaptarem rapidamente, gerando demanda por infraestrutura urbana, serviços e moradia em municípios que, até poucos anos atrás, não enfrentavam esse tipo de pressão de crescimento. O desafio passa a ser garantir que essas cidades absorvam esse dinamismo econômico sem repetir os erros de planejamento observados em outras regiões do país durante ciclos anteriores de expansão.

Quais soluções podem ser implementadas para superar os desafios da infraestrutura na região?
Guilherme Campos explica que, apesar do desempenho econômico favorável, a Região Norte carrega desafios estruturais que precisam ser enfrentados para que seu crescimento se sustente no longo prazo. A histórica carência de infraestrutura logística e de transporte, que por décadas reduziu a competitividade de polos industriais como o de Manaus, ainda representa um obstáculo relevante. Analistas também apontam que a região está mais exposta a choques de custos relacionados ao transporte rodoviário e ao encarecimento de insumos importados, em razão de sua forte dependência da malha viária terrestre.
Essa combinação de fatores exige que o crescimento da Região Norte seja acompanhado por investimentos consistentes em infraestrutura multimodal, rodovias, hidrovias e portos atuando de forma integrada, e por políticas públicas capazes de reduzir a dependência de uma única matriz logística. Sem esse equilíbrio, o risco é que o dinamismo econômico recente não se converta em desenvolvimento urbano e social proporcional, repetindo um padrão já visto em outras regiões do Brasil que cresceram economicamente sem a infraestrutura correspondente.
Investimento e planejamento urbano como condição para sustentar o crescimento
Guilherme Campos avalia que o crescimento econômico de uma região só se traduz em desenvolvimento real quando acompanhado de planejamento urbano capaz de absorver esse dinamismo. No caso da Região Norte, isso significa antecipar a infraestrutura de cidades que, nos próximos anos, deverão receber fluxo crescente de população, capital e atividade econômica decorrente da expansão do agronegócio, da mineração e da logística portuária.
Esse é um ponto sensível para investidores e gestores públicos: regiões que historicamente cresceram de forma acelerada, mas sem planejamento territorial correspondente, enfrentaram décadas de déficit habitacional, infraestrutura precária e desigualdade urbana. A Região Norte tem a oportunidade de evitar esse caminho, desde que o crescimento econômico atual seja acompanhado por investimentos coordenados em moradia, mobilidade e serviços básicos nas cidades que mais sentirão o impacto dessa expansão.
Do potencial natural ao protagonismo econômico: o que vem a seguir
A trajetória da Região Norte nos próximos anos dependerá da capacidade do país de transformar vantagens comparativas, como a disponibilidade de terra, a proximidade com rotas internacionais de exportação e a riqueza de recursos naturais, em infraestrutura permanente e planejamento urbano consistente. O crescimento projetado para 2026, superior ao de regiões tradicionalmente mais industrializadas, é um indicativo de que esse processo já está em curso, mas ainda distante de seu potencial máximo.
Se os investimentos em portos, rodovias e energia continuarem avançando no ritmo observado nos últimos dois anos, a Região Norte pode consolidar, ainda nesta década, um papel que historicamente esteve reservado a outras partes do país: o de polo estruturante do crescimento econômico nacional. Para Guilherme Campos, esse é um dos movimentos mais relevantes a se observar no panorama econômico brasileiro dos próximos anos, não apenas pelo volume de investimento que atrai, mas pela oportunidade de construir um modelo de desenvolvimento regional que equilibre crescimento econômico, infraestrutura e planejamento urbano desde sua origem.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez


